

![]() O BORDADO DAS HORAS
A vida é um tecido imenso que vamos bordando com a linha dos nossos dias, às vezes com pontos firmes e coloridos, outras vezes com nós cegos e linhas que se partem no meio do caminho. Juliana olhava para o passado e via um emaranhado de cores: o azul das tardes de mar, o cinza das esperas intermináveis e o vermelho vivo das paixões que deixaram cicatriz.
O avesso do bordado, ela sabia, era confuso e cheio de pontas soltas, mas era justamente ali que residia a verdade da construção. Ninguém vê o avesso, mas é ele que sustenta a beleza do desenho que mostramos ao mundo. Cada escolha feita era um novo ponto inserido na trama. Havia dias em que a mão tremia e o desenho saía torto, mas o tempo, esse mestre tecelão, dava um jeito de integrar o erro à composição final, transformando a falha em detalhe de personalidade.
Juliana aceitava que o bordado nunca estaria pronto, pois a beleza da obra humana está justamente na sua incompletude. Enquanto houver linha na agulha e luz nos olhos, haverá espaço para mais uma flor, mais um arabesco, mais uma tentativa de fazer da existência algo que valha a pena ser contemplado antes que o tecido seja dobrado. Fernanda Xerez
Enviado por Fernanda Xerez em 26/03/2026
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