Fernanda Xerez

O amor é de essência divina, portanto, sagrado!

Textos


A MENSAGEIRA DE OUTONOS

 

Ela chegava sem aviso, geralmente em uma tarde de terça-feira, trazendo o cheiro de terra úmida e o frescor que anunciava a mudança do ciclo. A mensageira não entregava envelopes, mas sensações. Era ele quem pintava as bordas das folhas de ocre e quem soprava o vento que fazia as cortinas da sala dançarem um balé nostálgico. Marília recebia essa visita com a reverência de quem reencontra um velho amigo. O outono era a estação da sua alma, o momento em que a natureza se recolhe para processar tudo o que floresceu e frutificou no calor do verão.

 

Nesse período de transição, a sua escrita tornava-se mais densa, como se as palavras também estivessem caindo dos galhos para adubar o solo da imaginação. Ela escrevia sobre a elegância do declínio e sobre a coragem de soltar as folhas secas que já não servem mais. Era como se ali, naquele momento tão seu, Marília encontrasse a razão porque as folhas outonais, jogadas ao chão, lhe traziam tantas lembranças.

 

A mensageira o ensinava que não há tristeza na queda, apenas preparação para o repouso. No silêncio das tardes alaranjadas, ele descobria que o fim de um ciclo é o berço silencioso do próximo, e que a paz consiste em aceitar que, para renascer com força na primavera, é preciso primeiro aprender a arte de despir-se no outono.

Fernanda Xerez
Enviado por Fernanda Xerez em 06/04/2026
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